Tem uma coisa engraçada — ou doentia, depende de como você encara — em como as guerras principiam. Alguém sempre dá o primeiro tiro, a primeira cutucada, a dedada inicial no ânus da situação, e pronto, o inferno está oficialmente na Terra. Aí, as bombas caem, o sangue é derramado e, quando a poeira finalmente baixa, adivinha só? O inferno ainda tá ali, de pé, firme e forte. A guerra, meu chapa, nunca realmente acaba. Eu já estive nesse circo de horrores vezes demais pra contar. Mas não precisa ser uma guerra entre nações, basta ser entre pessoas ou dentro de nós mesmos.
Hoje é só mais um desses dias... mais destroços de outra luta que eu sabia que não podia ganhar, mas, como sempre, entrei de cabeça. Porque é isso que eu faço, certo? Corro pro fogo como um maldito idiota, esperando que dessa vez, só dessa vez, eu não me queime. Mas, surpresa: sempre queimo. O problema? O fogo nunca é suficiente pra me parar.
A coroa imperial? Ah, grande porcaria. Títulos, linhagens, tradições... tudo isso é só uma desculpa disfarçada de pompa pra manter o gado no cercado. Uma dança de poder que começou séculos atrás e, adivinha, nunca terminou. Terras, sangue e poder. Sempre a mesma lenga-lenga em nome de alguma causa nobre. Nobreza? Por favor... não existe nobreza em tirar a vida de alguém só pra manter sua bandeira balançando no vento ou os status que lhes confere algum poder, todos iremos pra baixo da terra ou nossas cinzas sopradas ao vento. Mas quem sou eu pra julgar? Eu já fiz pior. Muito pior.
Perdão. Reconciliação. Estas palavras são como areia no vento, não servem pra nada além de soprar ilusões. Dizem que se a gente se arrepender o suficiente, pedir a Deus ou seja lá quem for por misericórdia, tudo vai se acertar. Acreditei nisso por muito tempo, sabia? Mas já tô calejado demais pra continuar com essa ilusão. Perdão? Isso é um luxo que a gente não pode se dar. O sangue nas minhas mãos não seca com orações. Nem nas suas, se quer saber.
O raio caiu, de novo. Mais uma estrela despencando do céu, mais uma alma perdida. A guerra continua, sagrada ou profana, tanto faz. O nome muda, mas no fundo é tudo sobre o mesmo veneno: orgulho. As ditas "guerras de fé" nunca foram sobre fé, foram sobre controle. E o que sobra depois que o orgulho devora tudo? Uma pilha de cadáveres e a amarga constatação de que nada realmente muda.
"Perdoa-nos, Pai, pois não sabemos o que fazemos." Quantas vezes eu já repeti isso como uma espécie de mantra pra tentar jogar no chão o peso das costas? A real é que a culpa sempre me arrasta de volta pro buraco que cavei. Fiz coisas que fariam o diabo corar. E o pior de tudo? Eu sabia exatamente o que estava fazendo. Cada decisão, cada sacrifício... eu sabia. Agora? Agora só restam as cicatrizes. E o perdão? Ah, isso é coisa pra santos, não pra gente como eu.
Dizem que a batalha acabou. Mas você e eu sabemos que isso é mentira. O campo de batalha só muda de lugar, a guerra continua latente em cada um de nós. Erguemos fronteiras, dividimos terras, como se isso pudesse apagar os erros do passado. Mas não dá, irmão. O que foi feito está cravado na pedra. Escrito na areia, quem sabe. E a única coisa que o vento leva embora é qualquer esperança tola que restava.
Olho pro horizonte e vejo minha insígnia toda ferrada. Sempre esteve. A marca que carrego, essa desgraçada, representa cada escolha errada que fiz. E, adivinha só? O mal que eu causei não vai ser esquecido, não importa quanto tempo passe. Pode ter reconciliação escrita em cada esquina, mas quem realmente acredita que uma guerra dessas pode ser perdoada? Eu, com certeza, não acredito.
Então, eu continuo andando. Um soldado lutando batalhas que não são minhas, mas que de alguma forma, sempre acabam me arrastando pra dentro. E o mais irônico de tudo? No fundo, eu ainda espero pelo perdão que nunca vai chegar.
Mas como eu disse... quem sou eu pra esperar redenção? Sou só mais um fantasma de uma guerra que nunca termina.
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