quarta-feira, 21 de maio de 2025

Edifício Importadora em construção

Belém, a cidade dos arcos de chuva e do sol moroso, revela-se em um instante cristalizado no final da década de 1940 ou nos primeiros compassos dos anos 1950: um kiosque, delicado em sua estrutura, repousa como um ornamento entre o palpitar das ruas, tendo ao fundo o edifício Importadora ainda em gestação, suas linhas ascendentes um prenúncio do futuro.

Mas o tempo, esse escultor impiedoso, avançou até 1966, o ano em que Belém celebrou seus 350 anos com solenidade e melancolia disfarçadas. O kiosque, testemunha silenciosa de tantas manhãs e conversas furtivas, foi desmantelado, sacrificando sua existência para ceder lugar à Praça Mauá. Ali, um novo protagonista ergueu-se: o monumento dedicado a Pedro Teixeira, circunscrito pelo espaço como um marco de pedra e história, guardião da memória e da mudança.

quarta-feira, 14 de maio de 2025

O Eco das Mãos Vazias

Nas profundezas quase insondáveis da minha noite, onde o tempo se dissolve em uma sequência irreconhecível de instantes e memórias, eu te encontrei. Não da maneira banal como os vivos se cruzam nos corredores do acaso, mas de um modo que só os sonhos, com sua argamassa de desejo e lembrança, podem construir. Havia em tua figura uma clareza que desafiava a própria lógica do sonhar: cada detalhe de ti parecia cinzelado com uma precisão exasperante, como se o próprio inconsciente, em um momento de capricho, tivesse se tornado pintor e poeta.

Eu te toquei, ou ao menos creio que sim, porque a sensação ficou em mim, mesmo depois do despertar. Foi algo ao mesmo tempo físico e ilusório – uma pressão sutil contra as palmas das minhas mãos que parecia afirmar tua presença e, simultaneamente, zombar dela. Falei contigo. Falei como quem despeja palavras num recipiente que nunca será completamente preenchido. Disse o que precisava dizer, mas também o que jamais havia pensado em dizer. Disse que sinto tua ausência como uma ferida que se recusa a cicatrizar, que cada dia sem ti é uma espécie de exílio imposto por um tirano caprichoso.

E você... você respondeu, mas não como os vivos respondem. Não houve lógica ou sequência em tuas palavras; havia, em vez disso, uma espécie de música, uma cadência que mais sugeria do que explicava. Era como se a alegria que irradiava de ti tivesse se tornado linguagem, como se tua felicidade, uma felicidade tão vívida que parecia deslocada do tempo, tivesse decidido me tocar de forma verbal.

E eu, eu tentei absorver isso. Tentei guardar cada sílaba, cada inflexão, como quem recolhe fragmentos de um vaso que jamais poderá ser reconstruído. Você me pediu, de forma quase infantil em sua simplicidade, para continuar. Para levantar-me. Para transformar a tua ausência em impulso, em algo que me empurrasse adiante, em vez de me arrastar para trás.

Acordei, claro, porque todos os sonhos terminam, mas a tua presença permaneceu comigo, não como uma lembrança, mas como um resíduo. Há em mim, desde então, uma inquietação que não consigo nomear, uma força que não sei de onde veio, mas que reconheço como tua. É uma força que me desafia, que me obriga a erguer-me de meus destroços e continuar a construção interminável de algo que ainda não compreendo.

E assim, o teu eco – não de voz, mas de ser – ressoa em mim, e eu me torno, a cada dia, não uma pessoa inteira, mas uma promessa de inteireza.

terça-feira, 6 de maio de 2025

Beleza Imortal

Ao abrir a porta daquele recinto, fui golpeado por um instante de luz e forma — uma beleza tão sublime que feriu meus olhos, como se eu houvesse olhado diretamente para o sol. Sentada, quase casual em sua pose, ela era ao mesmo tempo figura e sombra, espectro e carne. Uma composição perfeita de tons e texturas que não cabia em meras palavras, ainda que estas, agitadas como insetos ao redor de uma lâmpada, tentassem capturá-la.

Sua pele, translúcida e brilhante sob a luz dourada que banhava o lugar, parecia uma superfície que jamais conheceria o toque da impureza. E os lábios — ah, os lábios — com a suavidade da cereja mordida em um sonho, rosados pelo ardil da própria natureza. Mas eram seus olhos, aqueles olhos tão vastos e insondáveis, que me fizeram sentir algo semelhante ao que um poeta deve sentir ao se perder entre estrofes de um verso que jamais será concluído. Um olhar que era, ao mesmo tempo, acusação e absolvição, tormento e trégua.

Havia algo no modo como os fios de seus cabelos caíam despreocupadamente ao redor de seu rosto, como a moldura perfeita ao redor de um quadro que já é, por si só, obra-prima. O leve movimento dos fios sugeria um sussurro inaudível, uma promessa arrastada pelo vento, um murmúrio que escapava do mundo visível.

Tudo nela parecia ao mesmo tempo simples e inaceitavelmente complexo para uma mente humana que se recusa a sonhar, como o fio tênue entre o amor e a obsessão. E, como o primeiro gole de um licor proibido, senti a vertigem tomar conta do meu peito — o coração ameaçou bater fora do ritmo, como um pianista bêbado martelando teclas na escuridão.

Não sei quanto tempo fiquei ali, imóvel, estudando cada detalhe dela como se eu fosse um entomologista fascinado diante de um espécime raro, preso em âmbar. O tempo, esse carrasco que arrasta os vivos para a morte, perdeu qualquer sentido diante dela. Um sorriso flutuou em seus lábios, um fragmento de algo entre a doçura e o desprezo, e eu soube — soube que jamais sairia com o coração ileso dali.

Ela não era apenas bela; era insuportavelmente real. E naquele momento, como um escritor que queima seus últimos papéis numa fogueira da inspiração, desejei ardentemente imortalizá-la — palavra por palavra, sílaba por sílaba —, ainda que me custasse a própria alma.