Ao abrir a porta daquele recinto, fui golpeado por um instante de luz e forma — uma beleza tão sublime que feriu meus olhos, como se eu houvesse olhado diretamente para o sol. Sentada, quase casual em sua pose, ela era ao mesmo tempo figura e sombra, espectro e carne. Uma composição perfeita de tons e texturas que não cabia em meras palavras, ainda que estas, agitadas como insetos ao redor de uma lâmpada, tentassem capturá-la.
Sua pele, translúcida e brilhante sob a luz dourada que banhava o lugar, parecia uma superfície que jamais conheceria o toque da impureza. E os lábios — ah, os lábios — com a suavidade da cereja mordida em um sonho, rosados pelo ardil da própria natureza. Mas eram seus olhos, aqueles olhos tão vastos e insondáveis, que me fizeram sentir algo semelhante ao que um poeta deve sentir ao se perder entre estrofes de um verso que jamais será concluído. Um olhar que era, ao mesmo tempo, acusação e absolvição, tormento e trégua.
Havia algo no modo como os fios de seus cabelos caíam despreocupadamente ao redor de seu rosto, como a moldura perfeita ao redor de um quadro que já é, por si só, obra-prima. O leve movimento dos fios sugeria um sussurro inaudível, uma promessa arrastada pelo vento, um murmúrio que escapava do mundo visível.
Tudo nela parecia ao mesmo tempo simples e inaceitavelmente complexo para uma mente humana que se recusa a sonhar, como o fio tênue entre o amor e a obsessão. E, como o primeiro gole de um licor proibido, senti a vertigem tomar conta do meu peito — o coração ameaçou bater fora do ritmo, como um pianista bêbado martelando teclas na escuridão.
Não sei quanto tempo fiquei ali, imóvel, estudando cada detalhe dela como se eu fosse um entomologista fascinado diante de um espécime raro, preso em âmbar. O tempo, esse carrasco que arrasta os vivos para a morte, perdeu qualquer sentido diante dela. Um sorriso flutuou em seus lábios, um fragmento de algo entre a doçura e o desprezo, e eu soube — soube que jamais sairia com o coração ileso dali.
Ela não era apenas bela; era insuportavelmente real. E naquele momento, como um escritor que queima seus últimos papéis numa fogueira da inspiração, desejei ardentemente imortalizá-la — palavra por palavra, sílaba por sílaba —, ainda que me custasse a própria alma.
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