sábado, 12 de julho de 2025

Tratado Sobre a Incandescência de Um Ser Que Não Pede Permissão ao Sol Para Brilhar

Es criatura de traços tão harmoniosamente orquestrados que fariam corar de inveja as estátuas do Paracleto, és a epítome da simetria ideal — não geométrica, mas metafísica — como se o pincel de Apeles, guiado por um capricho divino, houvesse se aventurado pelas curvas do tempo até repousar no instante exato em que tua imagem se plasmou.

Teu semblante, translúcido como o véu de um sonho olvidado, é feito da mesma matéria efêmera dos crepúsculos outonais — onde o dourado da tarde se dissolve na púrpura melancolia do entardecer. Cada traço teu parece ter sido escolhido com o mesmo esmero com que um lexicógrafo seleciona a palavra rara e perfeita, aquela que, por sua obscuridade, encanta e desarma.

Há em teu olhar, não o espelho banal da alma, mas antes um espelho côncavo de enigmas, onde se aninha uma espécie de nostalgia pré-existencial — como se tu, antes de seres, já fosses saudade de ti mesma. Os olhos, essas amêndoas fulgurantes, encerram a promessa de mistérios não decifráveis, como um palimpsesto que nenhuma lâmina crítica ousaria rasurar.

E teus lábios, ó metáfora viva do rubro absoluto, repousam com a mesma arrogância serena com que repousa o saber interdito — ali onde o verbo hesita entre o profano e o sublime. Tu não sorris: tu conjuras. Cada curva de teu gesto é uma sílaba arcana num idioma apenas pressentido por poetas em delírio.

Por fim, há em tua presença — tão serena quanto inexorável — a auréola invisível de quem, sem fazer ruído, reconfigura o espaço ao redor: tu não caminhas, tu passas como passam os cometas, deixando na atmosfera uma estela de ininteligível fascínio.

Assim, permito-me dizer, sem medo da hipérbole, que a beleza e a gostosura em ti não é ornamento, mas linguagem; não é vitrine, mas cifra; não é adereço, mas axioma.

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