quarta-feira, 18 de junho de 2025

Como era o rosto da minha mãe?

As memórias mais antigas têm a consistência de névoa matinal - difusas, mas curiosamente persistentes, como impressões digitais em um vidro embaçado. Cientistas dizem que nossas primeiras lembranças começam a se formar por volta dos três anos, quando o hipocampo finalmente amadurece o suficiente para tecer os fios dourados da memória. Mas como confiar em recordações tão antigas, tão delicadas quanto teias de aranha ao vento?

Como era o rosto da minha mãe?

Essa pergunta me persegue como um fantasma gentil, sussurrando pelos corredores do tempo. Tinha uma foto dela, única âncora física de sua existência em minha vida - um vestido colorido dançando contra o cenário de uma praça ou ponte, não posso precisar. Mas até isso me foi roubado pelas mãos do ciúme, rasgado em pedaços pela mulher que veio depois, como se destruir papel pudesse apagar a existência de alguém que veio antes.

Na casa de madeira onde vivíamos em 1983, as lembranças se cristalizam em detalhes curiosamente específicos: o ranger característico do piso de madeira sob nossos pés, a textura áspera das paredes, o sofá de veludo gasto pelo tempo - testemunhas silenciosas de uma época que parece cada vez mais distante. A pequena TV, cujo modelo se perdeu na névoa do esquecimento, piscava sua luz azulada em uma estante modesta, onde bibelôs típicos dos anos 80 montavam guarda sobre nossas vidas cotidianas.

Meu pai, fonte primária desta investigação sobre o passado, sempre a descreveu com uma mulher alta, com longos cabelos escuros - traços típicos da beleza gaúcha que corria em suas veias. Mas quanto dessa descrição é memória real e quanto é construção posterior de uma mente cheia de perpétua saudades? As pistas se embaralham como um quebra-cabeça complexo.

Examino minhas próprias recordações como um detetive obstinado: há um perfume específico que às vezes encontro nas ruas e me transporta instantaneamente para aquela casa de madeira. Seria seu perfume? Os registros do hospital onde ela se internou mencionam uma enfermeira de "sorriso cativante" - outra peça do quebra-cabeça. Nos encontros com os mais velhos comentam sobre seu sorriso resplandecente, que dizem eu ter herdado. São fragmentos de evidência que vou colecionando meticulosamente.

Mas é nas manhãs nebulosas, quando a consciência ainda flutua entre o sono e a vigília, que seu rosto aparece com mais clareza - um fenômeno que os psicólogos chamam de "memória hipnopômpica". É nesse estado límbico que posso quase tocar a suavidade de sua pele, ver o brilho de seus olhos, sentir o calor de seu abraço. São momentos fugazes, como bolhas de sabão que estouram ao toque, mas carregam uma verdade emocional mais profunda e mais cheia de amor que qualquer fotografia poderia capturar.

As lembranças de uma criança de três anos são como diamantes brutos - precisam ser lapidadas pelo tempo e pela compreensão adulta. Cada novo detalhe trazido a tona, cada história contada por amigos distantes, cada sonho vívido adiciona uma nova faceta a esse retrato em constante construção. E talvez seja essa própria busca, essa investigação interminável, que mantenha sua memória viva, pulsando como uma estrela distante que, mesmo morta há anos-luz, ainda nos envia sua luz.


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