A escuridão não era um simples véu; ela se movia, pulsava em tons que escapavam à compreensão comum. Do negrume, um vulto se aproximava, cada passo reverberando como um estalo abafado no chão. Seus movimentos desajeitados tinham um ritmo metódico, quase robótico, enquanto o exoesqueleto eletrónico sussurrava seus mecanismos em tons metálicos, emitindo faíscas de eletricidade que perfuravam o ar com um odor de ozônio. O vulto era corpulento, sua carne se estendendo sob o metal como um fardo cansado, e sua face — ah, aquela face! — era um mosaico de cores conflitantes. Cada poro, cada rugosidade, parecia desenhar um mapa de sua degradação. Os olhos, de um castanho claro, tinham um brilho tênue, como um reflexo de uma fogueira distante prestes a apagar.
À sua frente, deitada, uma mulher — ou o que um dia fora uma mulher — jazia exposta, a pele em carne viva, deformada por chamas e traumas. O ar ao redor dela trazia uma estranha mistura de ozônio queimado e o estéril cheiro metálico de campos eletromagnéticos. O cheiro das queimaduras ainda pairava no ar, entrelaçado com o odor acre de pele carbonizada, formando uma atmosfera sufocante. Seu crânio, partido, revelava um vislumbre de massa encefálica que cintilava sob a luz tênue da sala, como uma ferida aberta que nunca cicatrizaria. Não havia sangue, apenas o silêncio eterno imposto pelo campo de animação suspensa. Era um corpo imóvel, suspenso entre a vida e o nada, sem sequer o alívio da decomposição.Ao lado dela, a Ginóide. Sua presença era um enigma. Despida de suas vestes sintéticas, seu corpo frio exalava um cheiro metálico, inerte. As placas abertas no crânio, no peito e no abdômen aguardavam por implantes como feridas esperando enxertos. O toque da pele metálica era estranho, quase desconcertante, vibrando levemente ao contato, como se ainda houvesse um resquício de vida ali, latente. Sua face removida revelava a ausência de expressão, um vazio que contrastava com o que ela já fora. O cheiro sintético mesclava-se ao leve vestígio de tecido orgânico apodrecido, uma lembrança de que, em algum momento, ela também fora parte viva, com alma e ambição.Ela não era apenas uma máquina; era uma sombra de algo mais profundo, uma ideia do que o homem jamais alcançaria. Seus feitos psíquicos, uma vez inigualáveis, agora jaziam na inércia. O ar ao redor dela ainda vibrava com os ecos de suas façanhas, como uma melodia perdida que continuava a ressoar em silêncio. A existência dela não era um mero artifício mecânico — era um lembrete cruel do que a humanidade jamais seria, um reflexo de uma evolução negada."Sonhei... O frio era tão penetrante que podia senti-lo se infiltrando em cada célula do meu ser, o vento carregando consigo o cheiro de umidade podre, de terra gélida e esquecida. Debaixo de um solo castigado, o cheiro da morte era um companheiro familiar — ácido, mofado, um toque amargo que me lembrava do tempo que passava sem que eu respirasse. Sentia minha própria carne decomposta, o toque áspero de roupas que haviam há muito se desintegrado em pó. Era um cheiro que grudava na alma, se é que eu ainda tinha uma. O orgulho ferido pendia no ar, um gosto metálico que queimava a garganta, como se cada pedaço de meu ser estivesse se desintegrando junto comigo.""Olhei para o teto de meu caixão — anos, séculos talvez. As tábuas de madeira apodrecidas tinham um cheiro forte, misturado ao aroma de formigas que escavavam por entre as fendas. Minhas mãos, esqueletizadas, tentaram se mover, arranhar a madeira acima. A sensação das unhas quebradiças se desintegrando ao contato com a madeira me trouxe uma estranha forma de alívio. O tempo passava, como um vento gelado que poderia soprar em meu rosto se eu não estivesse nas profundezas do solo, e mesmo assim... não consegui dormir."
"E então, uma voz... ela não era apenas um som. Era um vibrar de cada partícula ao meu redor, ecoando nas profundezas de minha mente, como um trovão abafado. O ar tremeu, carregando consigo o cheiro de algo ancestral, como se o próprio destino respirasse à minha frente. "Você será esquecido. Se tornará algo que jamais existiu." As palavras não eram apenas ouvidas, eram sentidas. O gosto de ferro preencheu minha boca. O tato da terra em decomposição ao meu redor sussurrava a verdade — o esquecimento era pior que a morte.""Mas eu sabia. Eu sabia que, mesmo no esquecimento, há sempre algo esperando... um toque, um cheiro, uma palavra não dita."





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