quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

O Último Minuto - (Histórias Negadas)

Em minha mente, o inferno nunca teve fogo. Tem grades. Invisíveis, mas tão reais quanto as cicatrizes que carrego. A jaula está lá, sempre esteve. Feita de tudo o que eu já perdi, e de tudo o que sei que nunca terei. Você se acostuma com Culpa? Humpf, é como aquele velho parente inconveniente e vagabundo que sempre aparece sem ser chamado, te dá aquele abraço apertado, hipócrita, e parece demora uma eternidade para ir embora. E no fim, você percebe que ela nunca vai embora de verdade.

Hoje, mais do que nunca, sinto as correntes apertando. Esse peso que a gente carrega – o tal do julgamento final – é quase tangível. Quer dizer, você passa a vida inteira fingindo que não vai chegar, mas ele tá ali. Sorrateiro. E o mais cruel disso tudo? Não importa o que você fez, faz ou fará. No fim das contas, santos e pecadores têm o mesmo destino: o solitário chão frio e escuro debaixo da terra, em volto a um paletó de madeira barato que os parentes compram como um derradeiro presente. Ah, mas você tenta. Tenta se importar. Tenta acreditar que há alguma saída desse pesadelo. Mas quem eu quero enganar?

Sempre achei que estava no controle tudo. Grande piada essa história de “Liberdade”. Isso não passa de um cigarro mal aceso que queima mais rápido que sob um numa tempestade forte. Agora, com o relógio correndo contra mim, sinto o calor das brasas – e a chama que vai consumir o que sobrou de mim está só começando. Os corajosos, os que se fingem de invencíveis, os que se imaginam com roupas de super-homens... eles negam. Claro que negam. Mas, lá no fundo, até o mais destemido sabe que o mal não dorme. Ele sussurra, se infiltra na sua cabeça até que sua própria consciência vire um circo de horrores.

Mas aqui vai a verdade: não é o mal que te destrói. É o medo. A loucura que cresce quando você percebe que as regras nunca foram e nunca serão justas. E que as escolhas que você achou que fez? Elas eram só o teste. No final, você nunca teve controle de nada, apenas viveu uma ilusão bizarra transvestida de controle.

O último minuto tá passando. Minha juventude, minha saúde, minha alma encontram-se escorrendo pelos meus dedos, como as areia do tempo numa ampulheta encardida. E o horizonte, esse maldito horizonte... nunca esteve tão próximo e tão distante ao mesmo tempo. Aliás, o tempo! Que essa piada de mau gosto, ele escapa de mim, e eu percebo que o julgamento está tão palpável quanto a ponta de uma lança bem próximo do seu nariz. Ele não é o que dói. O que realmente te quebra é aceitar que ele tá chegando e que você não pode fazer nada para deter isso. Um minuto a menos, outro perdido e lá se vai uma vida. E então, você encara o inevitável. Aquele “dia”.

Todo mundo passa por isso. Aquela hora em que sua voz quer gritar, quer ser ouvida, mas tudo o que sai é o silêncio. Não há mais tempo para orações ou lamentações. Nem para desculpas. Nada que você diga vai mudar o resultado. Você está sozinho. Sempre esteve. E aquele julgamento que você adiou a vida toda? Ele finalmente chegou à sua porta.

Sim, todos enfrentamos o fatídico dia do acerto de contas. E aqui vai a realidade que ninguém te conta: não tem escapatória. O fogo que você acendeu na sua própria "liberdade" ilusória irá queimar até a última centelha de sua essência. E você vai gritar, vai se contorcer... mas ninguém vai te ouvir. Nem eu.

Então, aqui estou. No meio dessa merda toda, esperando o que mais o destino vai arrancar de mim. O que mais eu posso perder, afinal, se já me tiraram tudo? Mas quer saber? Tanto faz. O final é o mesmo para todos. Mas escuta só essa: não se preocupe. No fim, o julgamento não é sobre o que você fez ou deixou de fazer. É sobre o que restou de você depois que o jogo acabou. E adivinha só? Ninguém vai sair inteiro dessa piada de mau gosto.

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