O sol da manhã penetrava pelas janelas empoeiradas, projetando sombras alongadas através das carteiras vazias - testemunhas silenciosas de tantas histórias. A luz do sol resvalava sobre as paredes amarelecidas, como dedos de um gigante cego, tateando texturas de tinta descascada e telhas encardidas. Ali estava ela: O velho “Sagrado”, a antiga escola que agora se dobrava sob o peso de sua idade avançada e de seu destino inevitável.
José ajustou a câmera entre os dedos trêmulos, capturando mais um quadro do que restava de sua antiga sala de aula. Aos 44 anos, sentiu o peso de cada momento vívido ali durante boa parte da década de 1990, quando ainda era apenas um garoto de olhos curiosos e sonhos imensuráveis.
O cheiro característico de giz ainda pairava no ar, misturando-se às fragrâncias peculiares da madeira antiga. No quadro-negro, equações matemáticas meio apagadas persistiam como fantasmas de uma aula interrompida. Era como se o tempo tivesse congelado, preservando cada detalhe em uma bolha temporal que logo seria estilhaçada pelos martelos da demolição.Ele explorava cada sala bem devagar, como se temesse desrespeitar aquele ambiente tão cheio de recordações. O eco de seus passos era o único som que preenchia aquele vazio, fantasma de uma algazarra extinta de crianças arteiras. Outrora o lugar pulsava com o movimento dos pequenos corpos, com a gritaria das manhãs apressadas, as corridas irrefletidas nos corredores, a vida em brutos lampejos de energia. Agora, tudo parecia suspenso em um estado de espera desconfortável.As carteiras escolares, desalinhadas em pseudas fileiras desordenadas, aguardavam alunos que nunca mais voltariam aquele lugar. A madeira de cada uma carregava sua própria história: marcas de caneta esferográficas, iniciais indecifráveis, riscos feitos por mãos inquietas. As mesas dos professores, mais austeras, ainda guardavam pequenos depósitos de giz branco nas frestas e nas gavetas agora vazias.Lá fora, o murmúrio distante do tráfego da Avenida Almirante Barroso lembrava-o constantemente do mundo que seguia seu curso implacável, alheio às suas reminiscências. Ele se aproximou de um quadro negro: Palavras e números mal apagados dançavam em uma neblina opaca, como vestígios de uma conversa antiga, de um conhecimento transmitido, mas agora sem ouvidos para captá-la e somente um par de olhos para apreciá-las. José esfregou as pontas dos dedos tocando o pó de giz e, por um instante, uma visão nítida o assaltou — ele mesmo, com 12 anos, sentado no fundo da sala, os olhos sonhadores fixos na janela, esperando pelo recreio, pela liberdade.Em uma tentativa vã de voltar no tempo com a força do mais puro pensamento, ele se sentou em uma das carteiras - agora pequena demais para seu tamanho corpulento - e deixou novamente seus dedos persistentes, agitados e descontrolados percorrerem as antigas marcas de riscos e de grafite na madeira. Quantas gerações passaram por ali? Quantos sonhos foram tecidos entre essas paredes? Imaginamos as famílias que, por décadas, atravessaram aquela porta todas as manhãs, confiando em seus filhos aos cuidados desta instituição.Levante-se lentamente, sua silhueta desenhada no chão como um fantasma do menino que foi. O relógio marcava oito horas - o mesmo horário em que costumava começar suas aulas. Em breve, as máquinas chegariam para transformar memórias em escombros. José tirou mais uma foto, tentando capturar não apenas a imagem, mas também a essência de um tempo que agora existia apenas em sua memória, como páginas amareladas de um livro que ninguém mais leria.Ao longe, na memória, ainda era possível ouvir mães chamando os filhos apressadamente, a correria das famílias que viviam nos arredores, como um balé de rotinas bem ensaiadas mesmo em seu estado de caos. Ele pensou nos pais, nos avós, nas crianças, gerações inteiras formadas sob aquele teto agora condenado. Quantas despedidas em cada carteira, quantos sorrisos, quantas vidas que germinaram para longe, como ele próprio havia feito, deixando um rastro invisível de saudade. Então, um nó se formou em sua garganta quando pensou que poderia ter sido um desses pais, trazendo seus próprios filhos para estudar ali, vendo-os crescer nos mesmos corredores que o formaram.Mas, enquanto tirava fotos com o zelo de um arquivista ele sentiu uma tristeza profunda e íntima. Não era apenas o fim do edifício que o feria; era o eco de possibilidades nunca vividas. Ele pensou nos filhos que nunca tivera, nos dias em que imaginara apresentá-los àquele mesmo lugar, conduzindo-os, com o orgulho ingênuo de um pai, pelos corredores onde ele fora menino. Mas seu casamento fracassado havia levado essa possibilidade, deixando apenas o gosto amargo do que poderia ter sido.Perto da janela do salão frontal, José se debruçou e se demorou. De lá, avistou o pátio da delegacia do Marco onde as crianças praticavam educação física em uma nuvem de poeira dourada, há muito tempo dissolvida pelo vento. As lembranças eram tão nítidas que quase pareciam ressoar no silêncio, quase tão tangível que poderia tocar e ali para sempre ficar. Ele fechou os olhos e, por um momento, todo aquele vazio se encheu de vozes: o grito de um professor impaciente, as risadas soltas de crianças despreocupadas, o campa metálica elétrica anunciando a hora de ir embora. Quando abriu os olhos, o vazio o encarou de volta.Com o último clique da câmera, ele suspirou fundo. A escola seria demolida, e em seu lugar surgiria talvez um prédio moderno, prático, sem vestígios de memória ou identidade. Algo dentro dele, talvez o menino que ainda olhava pela janela, lamentou profundamente essa substituição. Afinal, o progresso, como o tempo, não tolera pausas. Ao sair, fechando a velha porta pela última vez, José olhou para trás e depois caminhou sob a manhã perfeita, levando consigo o peso das memórias, como um livro fechado cujas histórias nunca mais poderiam ser continuadas.











Nenhum comentário:
Postar um comentário