quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Um breve relato

Quando via-te passar por mim entre a aurora e o entardecer, apenas no simples gesto de trocar olhares com você acabou revelando em mim um grande desejo de sentir o seu doce perfume. Porem, eu tinha de fazer o papel de um amante que ali se calava para esperar por um momento certo para te conhecer. E é incrível que depois que isso aconteceu, acabei descobrindo muitos sentimentos bons e muitas sensações que não acreditava ser capaz de sentir. Como quando nos abraçamos e sinto nossos corpos balançarem como pêndulos harmoniosos dançando num compasso sutil, porem, de coreografia perfeita! 

Quero encerrar esta missiva dizendo que quando sussurro em seus ouvidos que “Te Adoro!”, na verdade quero dizer que “Te Amo!”. Porque dentro de mim desejo que aquele momento se eternize num só instante, numa só alma e em um só coração.


sábado, 27 de setembro de 2025

Só Mais um Dia no Inferno Social

Detesto ser forçado a fazer qualquer coisa que me tire do meu curso, especialmente quando envolve lugares onde nem a alma se atreve a sorrir. Estar cercado por gente que eu mal suporto, ouvindo suas banalidades disfarçadas de conversa, me dá náuseas. E não é só isso: o cheiro de cerveja barata misturada com hálito azedo ataca minhas narinas enquanto eles divagam sobre coisas que me fazem questionar se o cérebro deles não se encontra em estado avançado de putrefação.

Tudo isso para cumprir um contrato social que eu nunca assinei, mas que parece ter me prendido com correntes invisíveis. Uma tortura voluntária por cortesia do maldito "é o que se espera de você". Pois é, eu devo ser um grande adepto da desobediência do meu próprio querer.

sábado, 12 de julho de 2025

Tratado Sobre a Incandescência de Um Ser Que Não Pede Permissão ao Sol Para Brilhar

Es criatura de traços tão harmoniosamente orquestrados que fariam corar de inveja as estátuas do Paracleto, és a epítome da simetria ideal — não geométrica, mas metafísica — como se o pincel de Apeles, guiado por um capricho divino, houvesse se aventurado pelas curvas do tempo até repousar no instante exato em que tua imagem se plasmou.

Teu semblante, translúcido como o véu de um sonho olvidado, é feito da mesma matéria efêmera dos crepúsculos outonais — onde o dourado da tarde se dissolve na púrpura melancolia do entardecer. Cada traço teu parece ter sido escolhido com o mesmo esmero com que um lexicógrafo seleciona a palavra rara e perfeita, aquela que, por sua obscuridade, encanta e desarma.

quarta-feira, 18 de junho de 2025

Como era o rosto da minha mãe?

As memórias mais antigas têm a consistência de névoa matinal - difusas, mas curiosamente persistentes, como impressões digitais em um vidro embaçado. Cientistas dizem que nossas primeiras lembranças começam a se formar por volta dos três anos, quando o hipocampo finalmente amadurece o suficiente para tecer os fios dourados da memória. Mas como confiar em recordações tão antigas, tão delicadas quanto teias de aranha ao vento?

Como era o rosto da minha mãe?

Essa pergunta me persegue como um fantasma gentil, sussurrando pelos corredores do tempo. Tinha uma foto dela, única âncora física de sua existência em minha vida - um vestido colorido dançando contra o cenário de uma praça ou ponte, não posso precisar. Mas até isso me foi roubado pelas mãos do ciúme, rasgado em pedaços pela mulher que veio depois, como se destruir papel pudesse apagar a existência de alguém que veio antes.

Na casa de madeira onde vivíamos em 1983, as lembranças se cristalizam em detalhes curiosamente específicos: o ranger característico do piso de madeira sob nossos pés, a textura áspera das paredes, o sofá de veludo gasto pelo tempo - testemunhas silenciosas de uma época que parece cada vez mais distante. A pequena TV, cujo modelo se perdeu na névoa do esquecimento, piscava sua luz azulada em uma estante modesta, onde bibelôs típicos dos anos 80 montavam guarda sobre nossas vidas cotidianas.

Meu pai, fonte primária desta investigação sobre o passado, sempre a descreveu com uma mulher alta, com longos cabelos escuros - traços típicos da beleza gaúcha que corria em suas veias. Mas quanto dessa descrição é memória real e quanto é construção posterior de uma mente cheia de perpétua saudades? As pistas se embaralham como um quebra-cabeça complexo.

Examino minhas próprias recordações como um detetive obstinado: há um perfume específico que às vezes encontro nas ruas e me transporta instantaneamente para aquela casa de madeira. Seria seu perfume? Os registros do hospital onde ela se internou mencionam uma enfermeira de "sorriso cativante" - outra peça do quebra-cabeça. Nos encontros com os mais velhos comentam sobre seu sorriso resplandecente, que dizem eu ter herdado. São fragmentos de evidência que vou colecionando meticulosamente.

Mas é nas manhãs nebulosas, quando a consciência ainda flutua entre o sono e a vigília, que seu rosto aparece com mais clareza - um fenômeno que os psicólogos chamam de "memória hipnopômpica". É nesse estado límbico que posso quase tocar a suavidade de sua pele, ver o brilho de seus olhos, sentir o calor de seu abraço. São momentos fugazes, como bolhas de sabão que estouram ao toque, mas carregam uma verdade emocional mais profunda e mais cheia de amor que qualquer fotografia poderia capturar.

As lembranças de uma criança de três anos são como diamantes brutos - precisam ser lapidadas pelo tempo e pela compreensão adulta. Cada novo detalhe trazido a tona, cada história contada por amigos distantes, cada sonho vívido adiciona uma nova faceta a esse retrato em constante construção. E talvez seja essa própria busca, essa investigação interminável, que mantenha sua memória viva, pulsando como uma estrela distante que, mesmo morta há anos-luz, ainda nos envia sua luz.


sábado, 14 de junho de 2025

O silêncio matutino na velha escola

O sol da manhã penetrava pelas janelas empoeiradas, projetando sombras alongadas através das carteiras vazias - testemunhas silenciosas de tantas histórias. A luz do sol resvalava sobre as paredes amarelecidas, como dedos de um gigante cego, tateando texturas de tinta descascada e telhas encardidas. Ali estava ela: O velho “Sagrado”, a antiga escola que agora se dobrava sob o peso de sua idade avançada e de seu destino inevitável.

quarta-feira, 21 de maio de 2025

Edifício Importadora em construção

Belém, a cidade dos arcos de chuva e do sol moroso, revela-se em um instante cristalizado no final da década de 1940 ou nos primeiros compassos dos anos 1950: um kiosque, delicado em sua estrutura, repousa como um ornamento entre o palpitar das ruas, tendo ao fundo o edifício Importadora ainda em gestação, suas linhas ascendentes um prenúncio do futuro.

Mas o tempo, esse escultor impiedoso, avançou até 1966, o ano em que Belém celebrou seus 350 anos com solenidade e melancolia disfarçadas. O kiosque, testemunha silenciosa de tantas manhãs e conversas furtivas, foi desmantelado, sacrificando sua existência para ceder lugar à Praça Mauá. Ali, um novo protagonista ergueu-se: o monumento dedicado a Pedro Teixeira, circunscrito pelo espaço como um marco de pedra e história, guardião da memória e da mudança.

quarta-feira, 14 de maio de 2025

O Eco das Mãos Vazias

Nas profundezas quase insondáveis da minha noite, onde o tempo se dissolve em uma sequência irreconhecível de instantes e memórias, eu te encontrei. Não da maneira banal como os vivos se cruzam nos corredores do acaso, mas de um modo que só os sonhos, com sua argamassa de desejo e lembrança, podem construir. Havia em tua figura uma clareza que desafiava a própria lógica do sonhar: cada detalhe de ti parecia cinzelado com uma precisão exasperante, como se o próprio inconsciente, em um momento de capricho, tivesse se tornado pintor e poeta.

Eu te toquei, ou ao menos creio que sim, porque a sensação ficou em mim, mesmo depois do despertar. Foi algo ao mesmo tempo físico e ilusório – uma pressão sutil contra as palmas das minhas mãos que parecia afirmar tua presença e, simultaneamente, zombar dela. Falei contigo. Falei como quem despeja palavras num recipiente que nunca será completamente preenchido. Disse o que precisava dizer, mas também o que jamais havia pensado em dizer. Disse que sinto tua ausência como uma ferida que se recusa a cicatrizar, que cada dia sem ti é uma espécie de exílio imposto por um tirano caprichoso.

E você... você respondeu, mas não como os vivos respondem. Não houve lógica ou sequência em tuas palavras; havia, em vez disso, uma espécie de música, uma cadência que mais sugeria do que explicava. Era como se a alegria que irradiava de ti tivesse se tornado linguagem, como se tua felicidade, uma felicidade tão vívida que parecia deslocada do tempo, tivesse decidido me tocar de forma verbal.

E eu, eu tentei absorver isso. Tentei guardar cada sílaba, cada inflexão, como quem recolhe fragmentos de um vaso que jamais poderá ser reconstruído. Você me pediu, de forma quase infantil em sua simplicidade, para continuar. Para levantar-me. Para transformar a tua ausência em impulso, em algo que me empurrasse adiante, em vez de me arrastar para trás.

Acordei, claro, porque todos os sonhos terminam, mas a tua presença permaneceu comigo, não como uma lembrança, mas como um resíduo. Há em mim, desde então, uma inquietação que não consigo nomear, uma força que não sei de onde veio, mas que reconheço como tua. É uma força que me desafia, que me obriga a erguer-me de meus destroços e continuar a construção interminável de algo que ainda não compreendo.

E assim, o teu eco – não de voz, mas de ser – ressoa em mim, e eu me torno, a cada dia, não uma pessoa inteira, mas uma promessa de inteireza.