Nas profundezas quase insondáveis da minha noite, onde o tempo se dissolve em uma sequência irreconhecível de instantes e memórias, eu te encontrei. Não da maneira banal como os vivos se cruzam nos corredores do acaso, mas de um modo que só os sonhos, com sua argamassa de desejo e lembrança, podem construir. Havia em tua figura uma clareza que desafiava a própria lógica do sonhar: cada detalhe de ti parecia cinzelado com uma precisão exasperante, como se o próprio inconsciente, em um momento de capricho, tivesse se tornado pintor e poeta.
Eu te toquei, ou ao menos creio que sim, porque a sensação ficou em mim, mesmo depois do despertar. Foi algo ao mesmo tempo físico e ilusório – uma pressão sutil contra as palmas das minhas mãos que parecia afirmar tua presença e, simultaneamente, zombar dela. Falei contigo. Falei como quem despeja palavras num recipiente que nunca será completamente preenchido. Disse o que precisava dizer, mas também o que jamais havia pensado em dizer. Disse que sinto tua ausência como uma ferida que se recusa a cicatrizar, que cada dia sem ti é uma espécie de exílio imposto por um tirano caprichoso.
E você... você respondeu, mas não como os vivos respondem. Não houve lógica ou sequência em tuas palavras; havia, em vez disso, uma espécie de música, uma cadência que mais sugeria do que explicava. Era como se a alegria que irradiava de ti tivesse se tornado linguagem, como se tua felicidade, uma felicidade tão vívida que parecia deslocada do tempo, tivesse decidido me tocar de forma verbal.
E eu, eu tentei absorver isso. Tentei guardar cada sílaba, cada inflexão, como quem recolhe fragmentos de um vaso que jamais poderá ser reconstruído. Você me pediu, de forma quase infantil em sua simplicidade, para continuar. Para levantar-me. Para transformar a tua ausência em impulso, em algo que me empurrasse adiante, em vez de me arrastar para trás.
Acordei, claro, porque todos os sonhos terminam, mas a tua presença permaneceu comigo, não como uma lembrança, mas como um resíduo. Há em mim, desde então, uma inquietação que não consigo nomear, uma força que não sei de onde veio, mas que reconheço como tua. É uma força que me desafia, que me obriga a erguer-me de meus destroços e continuar a construção interminável de algo que ainda não compreendo.
E assim, o teu eco – não de voz, mas de ser – ressoa em mim, e eu me torno, a cada dia, não uma pessoa inteira, mas uma promessa de inteireza.