terça-feira, 21 de janeiro de 2025

Um gesto que parecia encerrar em si mesmo o mundo inteiro

Esta noite sonhei com meu pai, um retorno improvável às tramas entretecidas do passado e do inconsciente. Foi durante uma visita técnica – uma dessas incursões rotineiras em comunidades que sufocam a alma com sua urgência – que percebi o peso costumeiro do dia a apertar meus ombros. Ao término, um amigo, com o olhar de quem guarda um segredo, disse-me que havia alguém à minha espera na cozinha.

Cruzando o limiar da porta, encontrei-o. Meu pai. Ali, de pé, envolto pelo vapor e pelo aroma familiar de algo simples e acolhedor que ele estava cozinhando. No sonho, a lógica titubeava diante da emoção: eu sabia que ele já havia partido, mas sua presença era tão tangível que tudo o mais se dissolveu. Ele se aproximou, e nos abraçamos, um gesto que parecia encerrar em si mesmo o mundo inteiro.

Coincidentemente me enviaram hoje uma fotografia dele. Uma moldura de memórias capturada no exato ponto em que a banalidade do cotidiano e a singularidade do afeto se encontram. Meu pai, em sua camisa clara, os cabelos tingidos de grisalhos pela passagem do tempo, está sentado à mesa de um restaurante. À sua frente, uma toalha florida se desdobra como um cenário delicado para um suco de laranja e uma garrafa de molho. Ele come, imerso em sua refeição, com a concentração reservada aos gestos mais íntimos e ordinários da vida. Que preciosidade é essa: a eternidade de um momento em que nada acontece e, ao mesmo tempo, tudo está presente.

Perder um pai é como ser desalojado do eixo do próprio ser. Desde abril do ano passado (2024), quando ele se foi, vivi este primeiro ano sem sua presença com a insana regularidade do trabalho a tentar preencher o vazio. No entanto, é precisamente nesses fragmentos de memória – como o sonho, como a fotografia – que o encontro novamente, e por um instante, ele vive.

Espero que essas memórias, essas preciosidades quase indecentes em sua capacidade de consolar e ferir, possam oferecer um consolo tênue. Pois nelas, nas rachaduras luminosas do passado, ele persiste, tão vívido quanto o desejo de tê-lo de volta.

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