sábado, 26 de abril de 2025

Sombras que Restam - (Histórias Negadas)

Eu sempre soube que o mundo era injusto. Não é exatamente uma epifania, certo? Mas, para alguns de nós, essa injustiça tem um gosto mais amargo, como um veneno que a gente é forçado a engolir bem devagar, gota por gota. Quando eu era moleque, não podia deixar de notar como as mães dos outros eram sempre... melhores. O jeito que elas cuidavam, se preocupavam, se certificavam de que tudo estava bem. As mães dos meus amigos pareciam rainhas, com braços que protegiam o seu mundo – Seus filhos. Já a minha, bem, ela se foi cedo demais. E, depois disso, sempre que eu via aquela cena — uma mãe abraçando o filho ou rindo de alguma bobagem que ele disse — uma parte de mim queimava por dentro.

Não é inveja, pelo menos não do tipo que faz você desejar mal aos outros. É mais como um buraco. Um vazio que você tenta preencher com qualquer porcaria que achar pelo caminho, mas que nunca se fecha. E quando você cresce sem isso, você aprende rápido que o mundo não está interessado em preencher buracos, só em cavar outros mais.

O velho? Ah, ele fazia o que podia, eu acho. Não era o pior pai, mas também nunca ganhou o troféu de "melhor do ano", se é que você me entende. O cara estava sempre lá, só que ao mesmo tempo... não estava. Faltava alguma coisa. Talvez ele só não soubesse o que fazer com um garoto que tinha mais perguntas do que ele podia responder. Eu o amava, claro que amava, mas isso não significava que a gente se entendia. Aliás, demorou pra isso acontecer. Só quando eu já estava crescido o suficiente para entender as pancadas da vida que a gente começou a se conectar. Irônico, né? Só quando você começa a ser lascado pelo mundo é que entende por que seu pai era do jeito que era. Quando ele morreu, foi estranho. Eu senti a falta dele, mas também percebi que a gente nunca teve, de verdade, um tempo de qualidade. Tínhamos só... o tempo.

E aí tem os amigos. Ou o que sobrou deles, pelo menos. Porque, veja bem, o mundo tem essa habilidade suja de te arrancar tudo que você ama. Um a um, os poucos que importavam começaram a desaparecer, levados por algum mal global ou por desgraças cotidianas que não faziam sentido. Fosse uma doença, um acidente, ou até a estupidez humana em sua forma mais pura, mais “primal”. Não importa o motivo, o resultado é o mesmo: um por um, eles caíram. E cada um que partia levava um pedaço meu junto. A solidão vai crescendo, sabe? Se enraizando, te cercando, até que você se pega olhando ao redor e se perguntando como diabos você chegou até aqui, sozinho.

É engraçado, eu sempre fui de ser sentimental, emotivo, na verdade. Mas, quando você perde o suficiente, começa a se perguntar o que sobra de você. E é isso que eu sou agora: o que sobrou. Eu me sinto num campo de batalha depois da guerra, cercado de cadáveres que, um dia, foram importantes. E o pior de tudo? As pessoas ao redor. Elas ainda estão vivas, mas são como ruído branco, me tirando a paz. Cada conversa fútil, cada problema pequeno que é inflado como se fosse o fim do mundo... Eles não entendem. Nunca vão entender.

A perda, a verdadeira perda, não é algo que se supera. É algo que você carrega, como um peso que nunca vai embora, você apenas se acostuma com ela. E as pessoas que ainda estão ao meu redor? Elas têm suas próprias cruzes, mas, honestamente, muitas vezes parece que estão aqui só pra me lembrar de como o mundo consegue ser inconveniente. Eu sou cortês o suficiente, talvez até pareça simpático de vez em quando, mas a verdade é que eu ando cansado. Cansado de segurar o mundo dos outros enquanto o meu se desintegra aos poucos.

Então, aqui estou, num estado constante de lamentação. Um espectador solitário num teatro cheio de almas que nunca vão entender o que é estar verdadeiramente sozinho, mesmo cercado de gente. E, talvez, no fundo, eu tenha aceitado que essa é a única constante: a perda. Ela nunca vai embora, só vai mudando de forma, e cabe a mim decidir como continuar carregando esse peso. Como seguir lutando numa guerra que nunca, realmente, termina.


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