sábado, 27 de setembro de 2025

Só Mais um Dia no Inferno Social

Detesto ser forçado a fazer qualquer coisa que me tire do meu curso, especialmente quando envolve lugares onde nem a alma se atreve a sorrir. Estar cercado por gente que eu mal suporto, ouvindo suas banalidades disfarçadas de conversa, me dá náuseas. E não é só isso: o cheiro de cerveja barata misturada com hálito azedo ataca minhas narinas enquanto eles divagam sobre coisas que me fazem questionar se o cérebro deles não se encontra em estado avançado de putrefação.

Tudo isso para cumprir um contrato social que eu nunca assinei, mas que parece ter me prendido com correntes invisíveis. Uma tortura voluntária por cortesia do maldito "é o que se espera de você". Pois é, eu devo ser um grande adepto da desobediência do meu próprio querer.

sábado, 12 de julho de 2025

Tratado Sobre a Incandescência de Um Ser Que Não Pede Permissão ao Sol Para Brilhar

Es criatura de traços tão harmoniosamente orquestrados que fariam corar de inveja as estátuas do Paracleto, és a epítome da simetria ideal — não geométrica, mas metafísica — como se o pincel de Apeles, guiado por um capricho divino, houvesse se aventurado pelas curvas do tempo até repousar no instante exato em que tua imagem se plasmou.

Teu semblante, translúcido como o véu de um sonho olvidado, é feito da mesma matéria efêmera dos crepúsculos outonais — onde o dourado da tarde se dissolve na púrpura melancolia do entardecer. Cada traço teu parece ter sido escolhido com o mesmo esmero com que um lexicógrafo seleciona a palavra rara e perfeita, aquela que, por sua obscuridade, encanta e desarma.

quarta-feira, 18 de junho de 2025

Como era o rosto da minha mãe?

As memórias mais antigas têm a consistência de névoa matinal - difusas, mas curiosamente persistentes, como impressões digitais em um vidro embaçado. Cientistas dizem que nossas primeiras lembranças começam a se formar por volta dos três anos, quando o hipocampo finalmente amadurece o suficiente para tecer os fios dourados da memória. Mas como confiar em recordações tão antigas, tão delicadas quanto teias de aranha ao vento?

Como era o rosto da minha mãe?

Essa pergunta me persegue como um fantasma gentil, sussurrando pelos corredores do tempo. Tinha uma foto dela, única âncora física de sua existência em minha vida - um vestido colorido dançando contra o cenário de uma praça ou ponte, não posso precisar. Mas até isso me foi roubado pelas mãos do ciúme, rasgado em pedaços pela mulher que veio depois, como se destruir papel pudesse apagar a existência de alguém que veio antes.

Na casa de madeira onde vivíamos em 1983, as lembranças se cristalizam em detalhes curiosamente específicos: o ranger característico do piso de madeira sob nossos pés, a textura áspera das paredes, o sofá de veludo gasto pelo tempo - testemunhas silenciosas de uma época que parece cada vez mais distante. A pequena TV, cujo modelo se perdeu na névoa do esquecimento, piscava sua luz azulada em uma estante modesta, onde bibelôs típicos dos anos 80 montavam guarda sobre nossas vidas cotidianas.

Meu pai, fonte primária desta investigação sobre o passado, sempre a descreveu com uma mulher alta, com longos cabelos escuros - traços típicos da beleza gaúcha que corria em suas veias. Mas quanto dessa descrição é memória real e quanto é construção posterior de uma mente cheia de perpétua saudades? As pistas se embaralham como um quebra-cabeça complexo.

Examino minhas próprias recordações como um detetive obstinado: há um perfume específico que às vezes encontro nas ruas e me transporta instantaneamente para aquela casa de madeira. Seria seu perfume? Os registros do hospital onde ela se internou mencionam uma enfermeira de "sorriso cativante" - outra peça do quebra-cabeça. Nos encontros com os mais velhos comentam sobre seu sorriso resplandecente, que dizem eu ter herdado. São fragmentos de evidência que vou colecionando meticulosamente.

Mas é nas manhãs nebulosas, quando a consciência ainda flutua entre o sono e a vigília, que seu rosto aparece com mais clareza - um fenômeno que os psicólogos chamam de "memória hipnopômpica". É nesse estado límbico que posso quase tocar a suavidade de sua pele, ver o brilho de seus olhos, sentir o calor de seu abraço. São momentos fugazes, como bolhas de sabão que estouram ao toque, mas carregam uma verdade emocional mais profunda e mais cheia de amor que qualquer fotografia poderia capturar.

As lembranças de uma criança de três anos são como diamantes brutos - precisam ser lapidadas pelo tempo e pela compreensão adulta. Cada novo detalhe trazido a tona, cada história contada por amigos distantes, cada sonho vívido adiciona uma nova faceta a esse retrato em constante construção. E talvez seja essa própria busca, essa investigação interminável, que mantenha sua memória viva, pulsando como uma estrela distante que, mesmo morta há anos-luz, ainda nos envia sua luz.


sábado, 14 de junho de 2025

O silêncio matutino na velha escola

O sol da manhã penetrava pelas janelas empoeiradas, projetando sombras alongadas através das carteiras vazias - testemunhas silenciosas de tantas histórias. A luz do sol resvalava sobre as paredes amarelecidas, como dedos de um gigante cego, tateando texturas de tinta descascada e telhas encardidas. Ali estava ela: O velho “Sagrado”, a antiga escola que agora se dobrava sob o peso de sua idade avançada e de seu destino inevitável.

quarta-feira, 21 de maio de 2025

Edifício Importadora em construção

Belém, a cidade dos arcos de chuva e do sol moroso, revela-se em um instante cristalizado no final da década de 1940 ou nos primeiros compassos dos anos 1950: um kiosque, delicado em sua estrutura, repousa como um ornamento entre o palpitar das ruas, tendo ao fundo o edifício Importadora ainda em gestação, suas linhas ascendentes um prenúncio do futuro.

Mas o tempo, esse escultor impiedoso, avançou até 1966, o ano em que Belém celebrou seus 350 anos com solenidade e melancolia disfarçadas. O kiosque, testemunha silenciosa de tantas manhãs e conversas furtivas, foi desmantelado, sacrificando sua existência para ceder lugar à Praça Mauá. Ali, um novo protagonista ergueu-se: o monumento dedicado a Pedro Teixeira, circunscrito pelo espaço como um marco de pedra e história, guardião da memória e da mudança.

quarta-feira, 14 de maio de 2025

O Eco das Mãos Vazias

Nas profundezas quase insondáveis da minha noite, onde o tempo se dissolve em uma sequência irreconhecível de instantes e memórias, eu te encontrei. Não da maneira banal como os vivos se cruzam nos corredores do acaso, mas de um modo que só os sonhos, com sua argamassa de desejo e lembrança, podem construir. Havia em tua figura uma clareza que desafiava a própria lógica do sonhar: cada detalhe de ti parecia cinzelado com uma precisão exasperante, como se o próprio inconsciente, em um momento de capricho, tivesse se tornado pintor e poeta.

Eu te toquei, ou ao menos creio que sim, porque a sensação ficou em mim, mesmo depois do despertar. Foi algo ao mesmo tempo físico e ilusório – uma pressão sutil contra as palmas das minhas mãos que parecia afirmar tua presença e, simultaneamente, zombar dela. Falei contigo. Falei como quem despeja palavras num recipiente que nunca será completamente preenchido. Disse o que precisava dizer, mas também o que jamais havia pensado em dizer. Disse que sinto tua ausência como uma ferida que se recusa a cicatrizar, que cada dia sem ti é uma espécie de exílio imposto por um tirano caprichoso.

E você... você respondeu, mas não como os vivos respondem. Não houve lógica ou sequência em tuas palavras; havia, em vez disso, uma espécie de música, uma cadência que mais sugeria do que explicava. Era como se a alegria que irradiava de ti tivesse se tornado linguagem, como se tua felicidade, uma felicidade tão vívida que parecia deslocada do tempo, tivesse decidido me tocar de forma verbal.

E eu, eu tentei absorver isso. Tentei guardar cada sílaba, cada inflexão, como quem recolhe fragmentos de um vaso que jamais poderá ser reconstruído. Você me pediu, de forma quase infantil em sua simplicidade, para continuar. Para levantar-me. Para transformar a tua ausência em impulso, em algo que me empurrasse adiante, em vez de me arrastar para trás.

Acordei, claro, porque todos os sonhos terminam, mas a tua presença permaneceu comigo, não como uma lembrança, mas como um resíduo. Há em mim, desde então, uma inquietação que não consigo nomear, uma força que não sei de onde veio, mas que reconheço como tua. É uma força que me desafia, que me obriga a erguer-me de meus destroços e continuar a construção interminável de algo que ainda não compreendo.

E assim, o teu eco – não de voz, mas de ser – ressoa em mim, e eu me torno, a cada dia, não uma pessoa inteira, mas uma promessa de inteireza.

terça-feira, 6 de maio de 2025

Beleza Imortal

Ao abrir a porta daquele recinto, fui golpeado por um instante de luz e forma — uma beleza tão sublime que feriu meus olhos, como se eu houvesse olhado diretamente para o sol. Sentada, quase casual em sua pose, ela era ao mesmo tempo figura e sombra, espectro e carne. Uma composição perfeita de tons e texturas que não cabia em meras palavras, ainda que estas, agitadas como insetos ao redor de uma lâmpada, tentassem capturá-la.

Sua pele, translúcida e brilhante sob a luz dourada que banhava o lugar, parecia uma superfície que jamais conheceria o toque da impureza. E os lábios — ah, os lábios — com a suavidade da cereja mordida em um sonho, rosados pelo ardil da própria natureza. Mas eram seus olhos, aqueles olhos tão vastos e insondáveis, que me fizeram sentir algo semelhante ao que um poeta deve sentir ao se perder entre estrofes de um verso que jamais será concluído. Um olhar que era, ao mesmo tempo, acusação e absolvição, tormento e trégua.

Havia algo no modo como os fios de seus cabelos caíam despreocupadamente ao redor de seu rosto, como a moldura perfeita ao redor de um quadro que já é, por si só, obra-prima. O leve movimento dos fios sugeria um sussurro inaudível, uma promessa arrastada pelo vento, um murmúrio que escapava do mundo visível.

Tudo nela parecia ao mesmo tempo simples e inaceitavelmente complexo para uma mente humana que se recusa a sonhar, como o fio tênue entre o amor e a obsessão. E, como o primeiro gole de um licor proibido, senti a vertigem tomar conta do meu peito — o coração ameaçou bater fora do ritmo, como um pianista bêbado martelando teclas na escuridão.

Não sei quanto tempo fiquei ali, imóvel, estudando cada detalhe dela como se eu fosse um entomologista fascinado diante de um espécime raro, preso em âmbar. O tempo, esse carrasco que arrasta os vivos para a morte, perdeu qualquer sentido diante dela. Um sorriso flutuou em seus lábios, um fragmento de algo entre a doçura e o desprezo, e eu soube — soube que jamais sairia com o coração ileso dali.

Ela não era apenas bela; era insuportavelmente real. E naquele momento, como um escritor que queima seus últimos papéis numa fogueira da inspiração, desejei ardentemente imortalizá-la — palavra por palavra, sílaba por sílaba —, ainda que me custasse a própria alma.

quarta-feira, 30 de abril de 2025

Diante de ti...

...o mundo silencia,

E em teus traços, a perfeição evidencia.
Pele dourada como a luz do amanhecer,
Um convite ao toque, ao sonho, ao querer.

Teu corpo é um poema que o olhar recita,
Cada curva uma rima, cada gesto palpita.
A harmonia que exalas, impossível descrever,
És arte viva, és o pulsar do prazer.

Teu cabelo, cascata de luz a dançar,
Emoldura o semblante que me faz suspirar.
E nesses olhos, oceanos de mistério,
Perco-me, rendido, sem critério.

És mais que beleza, és pura emoção,
Um fogo que aquece e preenche o coração.
O desejo por ti é chama que não se apaga,
És musa eterna, que meu verso embriaga.

sábado, 26 de abril de 2025

Sombras que Restam - (Histórias Negadas)

Eu sempre soube que o mundo era injusto. Não é exatamente uma epifania, certo? Mas, para alguns de nós, essa injustiça tem um gosto mais amargo, como um veneno que a gente é forçado a engolir bem devagar, gota por gota. Quando eu era moleque, não podia deixar de notar como as mães dos outros eram sempre... melhores. O jeito que elas cuidavam, se preocupavam, se certificavam de que tudo estava bem. As mães dos meus amigos pareciam rainhas, com braços que protegiam o seu mundo – Seus filhos. Já a minha, bem, ela se foi cedo demais. E, depois disso, sempre que eu via aquela cena — uma mãe abraçando o filho ou rindo de alguma bobagem que ele disse — uma parte de mim queimava por dentro.

Não é inveja, pelo menos não do tipo que faz você desejar mal aos outros. É mais como um buraco. Um vazio que você tenta preencher com qualquer porcaria que achar pelo caminho, mas que nunca se fecha. E quando você cresce sem isso, você aprende rápido que o mundo não está interessado em preencher buracos, só em cavar outros mais.

O velho? Ah, ele fazia o que podia, eu acho. Não era o pior pai, mas também nunca ganhou o troféu de "melhor do ano", se é que você me entende. O cara estava sempre lá, só que ao mesmo tempo... não estava. Faltava alguma coisa. Talvez ele só não soubesse o que fazer com um garoto que tinha mais perguntas do que ele podia responder. Eu o amava, claro que amava, mas isso não significava que a gente se entendia. Aliás, demorou pra isso acontecer. Só quando eu já estava crescido o suficiente para entender as pancadas da vida que a gente começou a se conectar. Irônico, né? Só quando você começa a ser lascado pelo mundo é que entende por que seu pai era do jeito que era. Quando ele morreu, foi estranho. Eu senti a falta dele, mas também percebi que a gente nunca teve, de verdade, um tempo de qualidade. Tínhamos só... o tempo.

E aí tem os amigos. Ou o que sobrou deles, pelo menos. Porque, veja bem, o mundo tem essa habilidade suja de te arrancar tudo que você ama. Um a um, os poucos que importavam começaram a desaparecer, levados por algum mal global ou por desgraças cotidianas que não faziam sentido. Fosse uma doença, um acidente, ou até a estupidez humana em sua forma mais pura, mais “primal”. Não importa o motivo, o resultado é o mesmo: um por um, eles caíram. E cada um que partia levava um pedaço meu junto. A solidão vai crescendo, sabe? Se enraizando, te cercando, até que você se pega olhando ao redor e se perguntando como diabos você chegou até aqui, sozinho.

É engraçado, eu sempre fui de ser sentimental, emotivo, na verdade. Mas, quando você perde o suficiente, começa a se perguntar o que sobra de você. E é isso que eu sou agora: o que sobrou. Eu me sinto num campo de batalha depois da guerra, cercado de cadáveres que, um dia, foram importantes. E o pior de tudo? As pessoas ao redor. Elas ainda estão vivas, mas são como ruído branco, me tirando a paz. Cada conversa fútil, cada problema pequeno que é inflado como se fosse o fim do mundo... Eles não entendem. Nunca vão entender.

A perda, a verdadeira perda, não é algo que se supera. É algo que você carrega, como um peso que nunca vai embora, você apenas se acostuma com ela. E as pessoas que ainda estão ao meu redor? Elas têm suas próprias cruzes, mas, honestamente, muitas vezes parece que estão aqui só pra me lembrar de como o mundo consegue ser inconveniente. Eu sou cortês o suficiente, talvez até pareça simpático de vez em quando, mas a verdade é que eu ando cansado. Cansado de segurar o mundo dos outros enquanto o meu se desintegra aos poucos.

Então, aqui estou, num estado constante de lamentação. Um espectador solitário num teatro cheio de almas que nunca vão entender o que é estar verdadeiramente sozinho, mesmo cercado de gente. E, talvez, no fundo, eu tenha aceitado que essa é a única constante: a perda. Ela nunca vai embora, só vai mudando de forma, e cabe a mim decidir como continuar carregando esse peso. Como seguir lutando numa guerra que nunca, realmente, termina.


quarta-feira, 23 de abril de 2025

Silhueta secreta

 Sob a luz tênue, tua silhueta desenha segredos,

Um mistério que chama, que queima meus desejos.

Tua pele, um campo de seda, convida ao toque,

Um universo de sensações, onde o tempo não corre.


Os contornos do teu corpo, sinfonia em movimento,

Ritmados pela dança de um sutil sentimento.

Teu aroma é um verso que embriaga o ar que eu realmente respiro,

Uma promessa que me faz sonhar.


E quando teus lábios encontram o silêncio,

O mundo ao redor perde o sentido imenso.

És a harmonia entre o real e o sonho,

A chama que acende meu íntimo risonho.


Desejo-te não apenas pelo que és à vista,

Mas pelo enigma que tua presença conquista.

És poesia viva, minha total inspiração, o ápice do querer,

Um desejo que floresce no prazer de querer te conhecer.


quarta-feira, 16 de abril de 2025

Escarlate em Movimento

 Há um vermelho que não é apenas cor,

mas um grito do coração ao pulsar;

o reflexo do fogo que dança,

do aço moldado na força do corpo.


Na geometria perfeita dos teus traços,

há um eco de constelações antigas,

um mapa de delicadeza e de sonhos,

onde cada curva é a promessa

de um amanhã tão belo quando se pode conceber.


O espelho, cúmplice do instante,

guarda o brilho que não se contém;

é o reflexo de uma alma

que, ao erguer-se, desafia o mundo.


Entre pesos e suor, a poesia do esforço,

o desabrochar de uma rosa rubra

no jardim das adversidades.

E ao vê-la, meu coração vagabundo

não consegue resistir

quarta-feira, 9 de abril de 2025

Viciante visão

Ah, doce visão, que em mortal semblante traz o fulgor das estrelas celestiais! Meus olhos se detém para admirar tua forma, vejo a própria essência da primavera, encarnada em curvas tão graciosas que fariam Apolo deter sua carruagem nos céus apenas para te olhar.

E teus olhos? Ai de mim! são janelas para um universo onde o amor reina sem limites como nos jardins do Eden. Cada gesto teu, ainda que breve, é uma dança de harpas ao vento, uma poesia muda que fala ao coração sem proferir palavra.

Ó, musa que pisa o chão como se ele fosse abençoado por teus passos, tua graça é um feitiço que não sei como quebrar. Que bardo pode, em sua pena humilde, traduzir o esplendor que a natureza em ti cifrou? És a aurora em carne, o suspiro das flores ao romper da manhã.

Se este mundo, tão repleto de sombras, ainda pode ostentar tal beleza, então há esperança de que os céus nos olhem com misericórdia. E eu, mísero amante à distância, preso entre o desejo de tocar-te e o temor de ser indigno, hei de render-me aos versos, pois somente em palavras e pensamentos posso possuir-te.

quarta-feira, 2 de abril de 2025

O Reflexo da Perfeição

Nos confins de uma sala envidraçada, onde os reflexos dançam entre vigas e suores, ela surge – um poema esculpido em carne e espírito. Seus cabelos ondulantes como um mar agitado feito do mais puro ouro, deslizam em cascatas até as margens de um corpo onde a primavera fez morada. A luz, essa cúmplice do desejo, brinca acariciando seus contornos me despertando uma inveja ilógica, tocando o lilás tênue de sua pele com a ousadia de um amante eterno.

Seu sorriso, meio escondido pelo tempo de um instante, é uma janela para o éter de mil madrugadas sonhadas e degustadas. Cada passo dela é uma vírgula no parágrafo eterno da beleza, cada gesto, uma palavra sussurrada para corações esquecidos do verbo amar. No fundo daquele templo de aço e movimento, ela é o altar e o motivo, a musa e o mistério.

Que cruel é o destino de quem a contempla: preso entre a ânsia de aproximar-se e o medo de quebrar o feitiço de sua perfeição efêmera. Você é Aurora e crepúsculo, um cintilar breve, mas eterno – a promessa de que, por um momento, o mundo é tão belo quanto deve ser.

quarta-feira, 26 de março de 2025

A Deusa em tons de ouro

 Em tons de ouro, a deusa que eu vi,

Pele de leite, um sonho a me seguir.

Em curvas perfeitas, um corpo a bailar,

Sob as luzes da noite, um anjo a brilhar.


Roupas justas, moldando a sua forma,

Um convite ao toque, uma tentação enorme.

Cabelos de mel, caindo sobre o rosto,

Um quadro de amor, um desejo posto.


Olhos de mar, que me prendem a ti,

Um sorriso doce, que me faz suspirar.

Em cada movimento, uma poesia,

Em cada olhar, a vontade de te amar.


Quero te tocar, sentir a tua pele,

Mergulhar em teus olhos, esquecer o mundo cruel.

És a musa que inspira meus versos de paixões,

A mulher que habita meus sonhos e emoções.


Este poema é um canto à tua beleza,

Um hino ao amor, à paixão e à pureza.

Em cada palavra, um desejo ardente,

De te ter em meus braços, eternamente.


Gostaria de escrever mais versos para ti,

Mas as palavras faltam para expressar o que sinto.

És a mulher mais linda que já vi,

E sou mais teu fã a cada dia.


Com todo o meu amor

quarta-feira, 19 de março de 2025

O Reflexo da Aurora

 No labirinto dourado dos cabelos,

a luz brinca como criança teimosa,

acariciando segredos que apenas

o silêncio das estrelas ousa guardar.


A primeira, com lábios que são versos,

desenha o mundo em promessas macias;

seus olhos, duas conchas contendo

mares que jamais se aquietam.


A segunda, plácida como a alvorada,

exala o perfume das memórias.

Seu sorriso — uma curva de destino,

onde o tempo repousa e se esquece.


Juntas, como gêmeas da aurora,

são sombras e claridades num jogo eterno,

onde o efêmero torna-se infinito,

e o simples ato de olhá-las

é oração aos mais belos milagres da vida.

quarta-feira, 12 de março de 2025

As Guerras que Nunca Acabam - (Histórias Negadas)

Tem uma coisa engraçada — ou doentia, depende de como você encara — em como as guerras principiam. Alguém sempre dá o primeiro tiro, a primeira cutucada, a dedada inicial no ânus da situação, e pronto, o inferno está oficialmente na Terra. Aí, as bombas caem, o sangue é derramado e, quando a poeira finalmente baixa, adivinha só? O inferno ainda tá ali, de pé, firme e forte. A guerra, meu chapa, nunca realmente acaba. Eu já estive nesse circo de horrores vezes demais pra contar. Mas não precisa ser uma guerra entre nações, basta ser entre pessoas ou dentro de nós mesmos.

Hoje é só mais um desses dias... mais destroços de outra luta que eu sabia que não podia ganhar, mas, como sempre, entrei de cabeça. Porque é isso que eu faço, certo? Corro pro fogo como um maldito idiota, esperando que dessa vez, só dessa vez, eu não me queime. Mas, surpresa: sempre queimo. O problema? O fogo nunca é suficiente pra me parar.

A coroa imperial? Ah, grande porcaria. Títulos, linhagens, tradições... tudo isso é só uma desculpa disfarçada de pompa pra manter o gado no cercado. Uma dança de poder que começou séculos atrás e, adivinha, nunca terminou. Terras, sangue e poder. Sempre a mesma lenga-lenga em nome de alguma causa nobre. Nobreza? Por favor... não existe nobreza em tirar a vida de alguém só pra manter sua bandeira balançando no vento ou os status que lhes confere algum poder, todos iremos pra baixo da terra ou nossas cinzas sopradas ao vento. Mas quem sou eu pra julgar? Eu já fiz pior. Muito pior.

Perdão. Reconciliação. Estas palavras são como areia no vento, não servem pra nada além de soprar ilusões. Dizem que se a gente se arrepender o suficiente, pedir a Deus ou seja lá quem for por misericórdia, tudo vai se acertar. Acreditei nisso por muito tempo, sabia? Mas já tô calejado demais pra continuar com essa ilusão. Perdão? Isso é um luxo que a gente não pode se dar. O sangue nas minhas mãos não seca com orações. Nem nas suas, se quer saber.

O raio caiu, de novo. Mais uma estrela despencando do céu, mais uma alma perdida. A guerra continua, sagrada ou profana, tanto faz. O nome muda, mas no fundo é tudo sobre o mesmo veneno: orgulho. As ditas "guerras de fé" nunca foram sobre fé, foram sobre controle. E o que sobra depois que o orgulho devora tudo? Uma pilha de cadáveres e a amarga constatação de que nada realmente muda.

"Perdoa-nos, Pai, pois não sabemos o que fazemos." Quantas vezes eu já repeti isso como uma espécie de mantra pra tentar jogar no chão o peso das costas? A real é que a culpa sempre me arrasta de volta pro buraco que cavei. Fiz coisas que fariam o diabo corar. E o pior de tudo? Eu sabia exatamente o que estava fazendo. Cada decisão, cada sacrifício... eu sabia. Agora? Agora só restam as cicatrizes. E o perdão? Ah, isso é coisa pra santos, não pra gente como eu.

Dizem que a batalha acabou. Mas você e eu sabemos que isso é mentira. O campo de batalha só muda de lugar, a guerra continua latente em cada um de nós. Erguemos fronteiras, dividimos terras, como se isso pudesse apagar os erros do passado. Mas não dá, irmão. O que foi feito está cravado na pedra. Escrito na areia, quem sabe. E a única coisa que o vento leva embora é qualquer esperança tola que restava.

Olho pro horizonte e vejo minha insígnia toda ferrada. Sempre esteve. A marca que carrego, essa desgraçada, representa cada escolha errada que fiz. E, adivinha só? O mal que eu causei não vai ser esquecido, não importa quanto tempo passe. Pode ter reconciliação escrita em cada esquina, mas quem realmente acredita que uma guerra dessas pode ser perdoada? Eu, com certeza, não acredito.

Então, eu continuo andando. Um soldado lutando batalhas que não são minhas, mas que de alguma forma, sempre acabam me arrastando pra dentro. E o mais irônico de tudo? No fundo, eu ainda espero pelo perdão que nunca vai chegar.

Mas como eu disse... quem sou eu pra esperar redenção? Sou só mais um fantasma de uma guerra que nunca termina.


quarta-feira, 5 de março de 2025

O Mundo sem Você: Um Buraco que Não se Preenche

Engraçado como a gente passa a vida toda sem saber o quanto alguém é uma parte fundamental da engrenagem. Acha que tá tudo bem, que não precisa de ninguém. Mas aí você se vai e, de repente, o mundo... Ele perde a cor, o som, o sentido. É como se as coisas continuassem rodando, mas faltasse uma peça — uma peça crucial. Não é poesia barata, é só que o mundo, assim, sem você, parece uma farsa. Cada rosto na multidão lembra o seu, cada silêncio parece o seu silêncio.

Sem você, até o café amargo perde o propósito. A vida continua, é claro, porque ela sempre continua, implacável, fria, cheia de obrigações. Mas a verdade é que, sem você, ela só segue o script, sem alma, como um relógio quebrado que insiste em fazer barulho. Parece que tudo que eu faço agora é esperar o tempo passar, porque, se o mundo já não faz sentido... Então talvez o que me resta seja apenas esperar para reencontrar o que realmente importava.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

Uma Carta ao Meu Amor Mais que Imperfeito

O mundo é um daqueles lugares imprevisíveis, sabe? A gente nunca sabe o que vai encontrar na próxima esquina, e, vou te dizer, você foi a única surpresa que me desarmou por completo. Nunca achei que existisse alguém que pudesse me fazer ver o mundo em cores que até então eu ignorava. E agora? Você está aí, o centro de tudo, e parece que nada faz sentido sem sua presença.

Não tem jeito de te descrever sem soar sentimental, então lá vai: você me completa, literalmente. Você é o toque que faltava, o gosto inesperado, o desejo que sempre me puxa pra você, num vício daqueles que nunca se esgotam. E, sim, o mundo fica meio vazio, insosso, quando não está por perto. É como se a vida, por mais estranha que seja, se equilibrasse um pouco mais com você por aqui.

Quero você de todos os jeitos, a cada detalhe, até nos contrastes — como minha cúmplice, minha parceira de vida e aquela que sabe exatamente como me desmontar e me reconstruir de novo. Eu não preciso nem te ver por horas para já estar morrendo de saudade. É estranho, mas cada segundo longe é uma eternidade de ansiedade para te ter de volta.

Se algum dia o medo ou o receio tentarem atrapalhar, não dê ouvidos. Esqueça as preocupações e as previsões pessimistas. Deixe que seja a gente, que o mundo espere. Eu sou seu e, no que der e vier, estou pronto para estar aí para você, sempre."

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

Uma Missiva de um Amante Peculiar

Olha, você deve ter achado que, entre todos os dias de rotina miserável, nenhum olhar furtivo me pegaria desprevenido. Mas o destino, cínico como só ele sabe ser, resolveu te jogar bem no meio do caminho. Entre um trago de café e uma batida apressada no relógio, cruzamos os olhos. Aquela troca rápida revelou algo que eu não me permitia sentir há muito tempo — o tipo de coisa que faz a gente ansiar por mais um olhar, pelo som da voz ou até mesmo pelo seu perfume, tão doce que me deixou parado, meio que sem fôlego. Não que eu fosse admitir logo de cara; um caçador sempre espera pelo momento certo para acertar o alvo, não é?

Foi aí que o tempo se arrastou até que as coisas acontecessem e — quem diria — eu, que pensava que tinha o coração blindado, descobri que ainda restavam algumas rachaduras. O tipo de sensação que você acha que morreu junto com a juventude, a vida ‘normal’. Mas não; bastou um abraço, e era como se nós dois fôssemos dois pêndulos, em perfeita harmonia, balançando ao som de alguma melodia perdida.

Agora, quando chego perto e sussurro um “Te adoro”, tem muito mais ali do que qualquer palavra daria conta. O que eu realmente queria dizer é que eu poderia facilmente viver todos os dias com isso, nesse minuto congelado onde nada mais importa. Então, sim, é amor, mas não vá espalhar por aí. Isso aqui é só entre nós e um bocado de poeira no ar.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

O Último Minuto - (Histórias Negadas)

Em minha mente, o inferno nunca teve fogo. Tem grades. Invisíveis, mas tão reais quanto as cicatrizes que carrego. A jaula está lá, sempre esteve. Feita de tudo o que eu já perdi, e de tudo o que sei que nunca terei. Você se acostuma com Culpa? Humpf, é como aquele velho parente inconveniente e vagabundo que sempre aparece sem ser chamado, te dá aquele abraço apertado, hipócrita, e parece demora uma eternidade para ir embora. E no fim, você percebe que ela nunca vai embora de verdade.

Hoje, mais do que nunca, sinto as correntes apertando. Esse peso que a gente carrega – o tal do julgamento final – é quase tangível. Quer dizer, você passa a vida inteira fingindo que não vai chegar, mas ele tá ali. Sorrateiro. E o mais cruel disso tudo? Não importa o que você fez, faz ou fará. No fim das contas, santos e pecadores têm o mesmo destino: o solitário chão frio e escuro debaixo da terra, em volto a um paletó de madeira barato que os parentes compram como um derradeiro presente. Ah, mas você tenta. Tenta se importar. Tenta acreditar que há alguma saída desse pesadelo. Mas quem eu quero enganar?

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

Ginóide - (Texto Confuso - TSC)

A escuridão não era um simples véu; ela se movia, pulsava em tons que escapavam à compreensão comum. Do negrume, um vulto se aproximava, cada passo reverberando como um estalo abafado no chão. Seus movimentos desajeitados tinham um ritmo metódico, quase robótico, enquanto o exoesqueleto eletrónico sussurrava seus mecanismos em tons metálicos, emitindo faíscas de eletricidade que perfuravam o ar com um odor de ozônio. O vulto era corpulento, sua carne se estendendo sob o metal como um fardo cansado, e sua face — ah, aquela face! — era um mosaico de cores conflitantes. Cada poro, cada rugosidade, parecia desenhar um mapa de sua degradação. Os olhos, de um castanho claro, tinham um brilho tênue, como um reflexo de uma fogueira distante prestes a apagar.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2025

O Peso da Fragilidade: Reflexões sobre o Crepúsculo da Existência

Há algo de peculiarmente trágico no envelhecer, essa transformação inexorável que consome não apenas o vigor físico, mas também a capacidade de permanecer um ser independente, insubmisso à piedade alheia. No entanto, há também uma melancolia insidiosa, quase obscena, na relutância de certos espíritos em reconhecer que essa vulnerabilidade faz parte de uma tapeçaria maior, cujos fios entrelaçam não apenas o indivíduo, mas todos ao seu redor.

Considere, por exemplo, o velho babão que, na ótica de quem narra, deixa de ser apenas uma sombra do que foi para se tornar um fardo que pesa não somente no corpo, mas na alma de sí próprio quanto nas dos que o cercam. É uma metáfora crua, despida de polidez, e, no entanto, profundamente humana. Talvez seja a clareza dessa franqueza que mais nos fere – a forma como ela ecoa os medos indizíveis que cultivamos em nossos próprios corações.

Nas memórias compartilhadas, há um desfile de figuras marcadas por esse inexorável desgaste: o tio que se tornou exemplo de carga, a avó que, em sua lucidez terminal, implorava a Deus para ser poupada de sofrer e de causar mais sofrimento, o pai silencioso cujo desconforto sussurrava aquilo que as palavras jamais ousariam enunciar. São personagens de minha própria vida que carregaram consigo um drama silencioso, costurados pela mesma angústia universal: o desejo de não ser um peso, o horror de se tornar o objeto da compaixão que outrora se ofertava.

Mas o que é a compaixão, senão o reconhecimento do vínculo que nos une, mesmo nos momentos em que a dignidade parece desintegrar-se? É curioso que, no texto, a resignação perante o destino seja reconhecida com tal amargura. Afinal, não é justamente esse véu de ignorância, essa cegueira ante o futuro, que nos permite caminhar com a ilusão de controle? Saber o fim, talvez, não traga conforto, mas sim um desespero maior – uma antecipação da impotência.

E assim, o envelhecer, com todo o seu fardo e seus fantasmas, torna-se não apenas um desafio individual, mas uma prova de caráter coletivo. Não é apenas o idoso quem luta; lutam também aqueles que a sua volta, não contra o peso físico, mas contra o espectro da própria fragilidade humana detonada pelo tempo e pelas doenças que atingem o corpo fraco.

O texto, em sua rude simplicidade, ecoa a pergunta que muitos de nós evitamos formular: quem seremos quando não mais pudermos ser úteis? É uma questão perturbadora, cujas respostas habitam o limiar do desconhecido – aquele território nebuloso que, talvez, seja melhor não explorar até que se torne inevitável.


quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

Nos Olhos da Tentação

Entre sombras e luzes que me cercam,

Vislumbro o brilho de um anjo perdido,

Com olhos que abrem portais para o infinito,

E um sorriso que desafia o próprio destino.


Ah, ser tua perdição e salvação ao mesmo tempo,

Ser teu poeta apaixonado, preso entre o desejo e o medo,

Teu perfume é magia, teu toque, feitiço,

E mesmo que a escuridão me reclame, por ti eu arrisco.


Teus cabelos, fios dourados da aurora,

Deslizam como promessas ao vento,

Cada curva do teu rosto conta uma história,

Onde me perco, buscando alento.


És mais que bela, és um paraíso que me enfeitiça,

Como uma chama que me atrai e consome,

Mas se eu jamais te ter,

Que minha alma apaixonada grite feliz o teu nome.

terça-feira, 21 de janeiro de 2025

Um gesto que parecia encerrar em si mesmo o mundo inteiro

Esta noite sonhei com meu pai, um retorno improvável às tramas entretecidas do passado e do inconsciente. Foi durante uma visita técnica – uma dessas incursões rotineiras em comunidades que sufocam a alma com sua urgência – que percebi o peso costumeiro do dia a apertar meus ombros. Ao término, um amigo, com o olhar de quem guarda um segredo, disse-me que havia alguém à minha espera na cozinha.

Cruzando o limiar da porta, encontrei-o. Meu pai. Ali, de pé, envolto pelo vapor e pelo aroma familiar de algo simples e acolhedor que ele estava cozinhando. No sonho, a lógica titubeava diante da emoção: eu sabia que ele já havia partido, mas sua presença era tão tangível que tudo o mais se dissolveu. Ele se aproximou, e nos abraçamos, um gesto que parecia encerrar em si mesmo o mundo inteiro.

Coincidentemente me enviaram hoje uma fotografia dele. Uma moldura de memórias capturada no exato ponto em que a banalidade do cotidiano e a singularidade do afeto se encontram. Meu pai, em sua camisa clara, os cabelos tingidos de grisalhos pela passagem do tempo, está sentado à mesa de um restaurante. À sua frente, uma toalha florida se desdobra como um cenário delicado para um suco de laranja e uma garrafa de molho. Ele come, imerso em sua refeição, com a concentração reservada aos gestos mais íntimos e ordinários da vida. Que preciosidade é essa: a eternidade de um momento em que nada acontece e, ao mesmo tempo, tudo está presente.

Perder um pai é como ser desalojado do eixo do próprio ser. Desde abril do ano passado (2024), quando ele se foi, vivi este primeiro ano sem sua presença com a insana regularidade do trabalho a tentar preencher o vazio. No entanto, é precisamente nesses fragmentos de memória – como o sonho, como a fotografia – que o encontro novamente, e por um instante, ele vive.

Espero que essas memórias, essas preciosidades quase indecentes em sua capacidade de consolar e ferir, possam oferecer um consolo tênue. Pois nelas, nas rachaduras luminosas do passado, ele persiste, tão vívido quanto o desejo de tê-lo de volta.

sábado, 18 de janeiro de 2025

O distante 1951

Em Belém, no distante 1951, um mapa olfativo e visual traçava as mercearias de renome, santuários de abundância onde o tempo parecia curvar-se à minúcia do cotidiano. Havia a Casa Camarinha, um relicário de produtos finos repousando na rua da Indústria; a Casa Carioca, que resplandecia no Largo das Mercês; a Casa Carvalhaes, como um segredo murmurado na rua Santo Antônio; a Casa Corcovado, firmada na esquina geométrica da avenida Portugal com João Alfredo; e, por fim, as memórias gêmeas da Casa Portugal e do Vesúvio, que dominavam a majestosa avenida 15 de Agosto, hoje chamada Presidente Vargas.

Foto localização da Casa Corcovado
Mas todas elas, como castelos de areia sob a investida das ondas, desapareceram. A modernidade apagou seus traços com a precisão fria de um apagador, varrendo também os armazéns da 15 de Novembro, que jazem agora como ecos tênues, flutuando no ar pesado da memória coletiva.

terça-feira, 14 de janeiro de 2025

Rosa dos Ventos

No teu brilho rosado, que mais parece um truque da aurora,

Teus movimentos flutuam como sombras dançando entre a fumaça,

És beleza que devora, queima por dentro, uma marca que ninguém esquece.


Teus olhos, uma chama serena,

Despertam sonhos quebrados, como o mar puxando pra abismos,

Cada curva tua, uma armadilha oculta,

Um desejo disfarçado, pronto pra arruinar meu equilíbrio.


Esse rosa que te envolve como um véu de ilusão,

É fogo que consome, flor de essência viva,

És como o vento que corta, tumultua pensamentos e sentimentos,

E na tua luz, só resta o calor de uma estrela.


Teu sorriso é como os cânticos das sereias,

Ilumina o caminho para a minha própria perdição,

E no teu encanto, quem diria,

Esconde-se o doce veneno do mistério.


Ah, musa de vestido rosa,

Beleza que o tempo finge não roubar,

Em ti repousa a alma de uma deusa,

Do amor que nos arrasta, pra essência da minha paz.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

Entre Sombras e Luzes

Entre o aço frio e os reflexos de luz,

vi teu corpo, uma chama que arde contra a escuridão.


A academia, um altar moderno, onde suor vira sacrifício

e teu olhar, um vislumbre do paraíso em meio ao caos.


Teus dedos delicados seguram o peso da realidade,

mas é no brilho dos teus olhos que vejo algo mais,

uma promessa não dita,

um desejo enterrado entre o concreto e o aço.


Como um cigarro aceso em uma noite sem estrelas,

teu corpo brilha, delineado na névoa do esforço.


O mundo pode ser um inferno,

mas você, garota, é o único paraíso ao qual eu ainda gostaria de pertencer.


Ah, mas quem sou eu para tocar o divino?

Sou apenas um vagabundo que se perde nas sombras,

enquanto você segue brilhando,

indiferente ao destino, mas gravada na minha alma.


E se o amanhã trouxer apenas escuridão,

que seja, pois hoje, você é a luz que me faz continuar.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

A Casa de Madeira - Jornada X

A velha casa de madeira ainda geme sob o peso do tempo,  

como se cada tábua guardasse um segredo esquecido,  

um eco das risadas de outrora, engolido pelo silêncio.  

Os móveis dos anos 80, desbotados, resistem ao esquecimento,  

como sentinelas cansadas em uma guerra perdida.


O sofá marrom, o tapete manchado,  

a TV que zumbia enquanto o tempo passava devagar.  

Tudo parece tão pequeno agora,  

tão distante, mas ao mesmo tempo, perto demais.


O cheiro de madeira antiga e café frio ainda paira no ar,  

me envolvendo como um cobertor que já não aquece.  

Era um tempo em que o mundo parecia maior,  

mas a casa, essa pequena fortaleza,  

era o único lugar onde as sombras não me seguiam.


E, no entanto, aqui estou,  

de volta a essa relíquia de dias mais simples,  

onde cada móvel é um fantasma de uma lembrança que tento esquecer,  

mas que me persegue como um cigarro aceso em meus sonhos.


Se pudesse, queimaria essa casa e tudo o que ela representa,  

mas talvez, apenas talvez,  

o fogo não apagaria o que foi gravado em minha alma,  

nem as marcas deixadas pelo tempo e pela saudade.